Pão e Poesia por Vera Barbosa - UOL Blog
Renata Arruda prepara CD e DVD

Cantora comemora os dez primeiros anos de carreira discográfica
por Beto Feitosa

Renata Arruda comemora dez anos carreira discográfica. A cantora paraibana, que aos 19 anos foi para a capital do país cantar, prepara agora um DVD e um CD revisando, lembrando, contando e cantando um pouco essa história.

Seu disco de estréia data de 1994, quando já morava no Rio. Em Traficante de ilusões a cantora já marcou vários gols: emplacou a regravação para Sangue latino em trilha sonora de novela das oito e Só de sacanagem no seriado teen Confissões de adolescente. Indicada para o Prêmio Sharp como melhor música pela realista Copacabana blues, ainda participou de vários programas de TV. A estreante ainda se deu ao luxo de ter participações de Ney Matogrosso (Cidade de isopor) e Alceu Valença (Na primeira manhã).

"Esse CD é totalmente voltado para o público que me acompanha nesse caminho", dedica Renata Arruda em entrevista por e-mail. Seu quinto trabalho mistura músicas marcantes de sua trajetória e também repertório inédito. "O balanço é sempre muito positivo, sou muito feliz por fazer música", garante a cantora. "É um retrato da Renata de hoje de maneira simples, tocando à vontade, levando um som com amigos para amigos", define.

Como compositora Renata acumula parcerias com Sandra de Sá e Mongol. Uma de suas músicas, a ótima Faço de tudo, foi gravada pelo exigente Ney Matogrosso. "Estou sempre buscando músicas novas, minhas ou de outros autores. Tenho muita vontade de fazer trabalhos novos. Gosto de estar sempre criando, buscando novos caminhos e possibilidades", entrega Renata que no futuro planeja um trabalho só de composições próprias

"Qualquer música que eu venha cantar, sendo minha ou não, inédita ou não, é sempre um grande prazer. Viro personagem, viro qualquer coisa por uma canção", garante a cantora. "Para mim existem dois tipos de música: a boa e a ruim", define.

Abrindo seu primeiro CD Renata Arruda usou as palavras certeiras de Cazuza: "Tem gente que recebe Deus quando canta, tem gente que canta procurando Deus". O caminho passa por mais quatro trabalhos, sucessos de rádio, novelas e comerciais de TV. Acima de tudo, uma trajetória construída com amor e garra. Esse trabalho fecha a tampa, resume dez anos de batalha e prepara garras e músicas para as próximas décadas.

Extraído do site Ziriguidum

Chico Pinheiro mostra seu brilho em segundo disco

Ronaldo Evangelista - 29/06

Em shows no Sesc Pompéia, violonista apresenta composições de seu novo álbum, lançado pela gravadora Biscoito Fino

No universo da música instrumental brasileira, existem várias órbitas com suas leis e lógicas próprias. Ocupando seu lugar neste espaço, o violonista, guitarrista e compositor Chico Pinheiro mostra seu brilho próprio hoje e amanhã no Sesc Pompéia, em dois shows de lançamento de seu disco mais recente, homônimo.

No show, ele toca violão e guitarra (e canta) acompanhado do pianista Fábio Torres e do baixista Marcelo Mariano, músicos com quem já divide palcos e estúdios há tempos. O baterista será Celso de Almeida e haverá ainda participação de duas cantoras: Luciana Alves e Tatiana Parra. A participação de cantoras no seu show, aliás, já é uma tradição. Até hoje ele é lembrado como o músico que lançou Maria Rita como cantora, em 2002, quando ela fazia humilde participação em seu show.

Depois de lançar sua ultra-independente estréia, "Meia-Noite, Meio-Dia", em 2003, o músico volta agora sob o apoio da Biscoito Fino. O destaque deve ser maior, a evolução foi notória.

Interessado em criar e desenvolver um estilo de tocar e compor que seja brasileiro, novo e interessante, Pinheiro conta que suas influências são muitas. Daí exatamente surge sua personalidade. "Sempre ouvi e gostei muito de música clássica, jazz, música brasileira, pop e rock dos anos 70, muita coisa. No Brasil, nossa informação musical é muito grande. E o bom é isso, assimilar tudo. Se você se fecha, a música não evolui. É essa coisa Oswaldiana, "Mariodeandradeana", do modernismo, a gente pega as coisas e transforma em algo diferente."

Sobre as diferenças entre o primeiro e o segundo disco, ele comenta: "Os dois são muito diferentes, mas por mais que a gente mude, a semente é a mesma. É uma linha evolutiva dentro de uma lógica. Acho que quem compõe acaba desenvolvendo uma personalidade, então são as minhas músicas. Quando eu componho eu não penso, eu faço. É um mistério como acontece. No disco novo há uma evolução, ele é mais conciso, mais maduro. Este segundo trabalho está mais jazzístico que o primeiro, com mais solos, com uma maneira mais solta de tocar. Digo isso porque o jazz não é um estilo, é uma maneira de pensar a música. O choro também tem muito disso".

É uma concepção aberta, rica, cheia de influências e com pegada popular. Será que todas essas referências fazem com que o som se torne mais facilmente entendido pelo público em geral? "Isso eu não sei dizer. Já ouvi de tudo sobre minha música: que é sofisticada, que é fácil de ouvir. Acho que o importante é que a pessoa sinta. Eu adoro a opinião de pessoas leigas. A pessoa não ouve analisando, ela se emociona, mesmo se não entender o que acontece musicalmente. A função da música é essa, fazer você sentir. Assim você se acha. É por isso que sou músico, para que as pessoas sintam."


Chico Pinheiro
Quando: 29 e 30/06, às 21h
Onde: Sesc Pompéia (r. Clélia, 93, SP, tel. 0/xx/11/3871-7700)
Quanto: R$ 4 a R$ 12

Extraído de Folha Ilustrada

Todas as Cores da Aquarela Brasileira de Emílio Santiago

Cantor lança DVD e CD ao vivo com o melhor da série lançada nos anos 80
Mauro Ferreira

CD DVD

Em 1988, um fenômeno espontâneo de vendas surpreendeu o mercado fonográfico brasileiro. Através dos lojistas, que tocavam sem parar o disco Aquarela Brasileira, lançado por Emílio Santiago naquele ano, o público foi descobrindo, adorando e comprando o LP. Idealizado por Heleno Oliveira e Roberto Menescal, o projeto consistia em oferecer na voz aveludada e afinadíssima de Emílio Santiago – já naquela época um dos melhores cantores do Brasil de todos os tempos – um leque variado de sucessos da música brasileira. Inicialmente, Emílio gravaria apenas um disco Aquarela Brasileira. Acabou lançando sete, entre 1988 e 1994, e se tornou com a série o grande vendedor de CDs que sempre mereceu ser por conta do raro talento vocal, da emissão perfeita, da técnica que nada fica a dever aos melhores crooners americanos.

Decorridos nove anos do sétimo e último volume da bem-sucedida série, quando o cantor partiu para gravar discos de diferentes matizes como Perdido de Amor (1995), refinado tributo a Dick Farney, Emílio Santiago retoma o repertório da série em sua estréia na gravadora Indie Records. O cantor está lançando o DVD e o CD ao vivo O Melhor das Aquarelas, gravado em show no Canecão, em 9 de março de 2005. O título do projeto já diz tudo: sob a direção artística de Líber Gadelha e a produção musical de Jorge Cardoso, Emílio faz um apanhado dos melhores momentos dos sete volumes da coleção que projetou sua voz em todo o Brasil. O projeto foi idealizado por Alexandre Martins. “As pessoas até hoje me cobram novas aquarelas”, contou Emílio na gravação, diante de convidados vips como sua amiga Alcione. “Estou contente de voltar ao palco do Canecão e relembrar um período maravilhoso da minha carreira”, testemunhou o cantor durante o show.

Nas 21 faixas do DVD e nas 15 do CD, é possível entender o sucesso da série. Um grande cantor interpreta músicas que estão eternizadas no imaginário popular. Com a ressalva de que alguns sucessos, como o samba Verdade Chinesa (da Aquarela 3, de 1990), foram lançados pelo próprio artista. Basta Emílio dar a deixa que o público completa com entusiasmo os versos desta música, num dos momentos mais animados do DVD. O repertório é um passeio por todas as cores da obra de Emílio e, por tabela, da própria música produzida e consumida no Brasil. Tem canções de uma suavidade quase bossa-novista (Coisas da Paixão, Reciclar), tem boleros derramados (num pot-pourri com Desenho de Giz e Papel Machê, hits de João Bosco, dos quais Emílio se apropria para fazer um dos números de maior interação com a platéia), tem clássicos da MPB como Eu Sei que Vou te Amar (cantado pausada e delicadamente na companhia do violão de Bernardo Bosisio), tem um sucesso de Ângela RoRo (Só nos Resta Viver, de 1980), hits lançados pelo próprio cantor (Flamboyant, da Aquarela 6) e um samba-exaltação do porte de Aquarela do Brasil, pintada por Emílio com ginga e todas as cores de sua voz. O clássico de Ary Barroso fecha o CD e o DVD numa síntese perfeita do trabalho. A propósito, o samba dá o tom de boa parte do repertório. Inclusive da inédita Tempestade em Alto Mar, de autoria de Altay Veloso, compositor recorrente nos repertórios das aquarelas. E de sucessos mais antigos como Perfume Siamês (da Aquarela 4, de 1991), que ganhou leitura sincopada. O sambão Pelo Amor de Deus – sucesso de Emílio na fase pré-Aquarelas – obviamente também dá o ar da graça. Ainda na seara do samba, Emílio surpreende com duas releituras de peso. Fato Consumado, primeiro sucesso de Djavan, de 1975, tem metais em brasa e mostra um Emílio à vontade nas quebradas do ritmo do compositor, colega dos tempos em que ambos cantavam na noite carioca dos anos 70. Logo Agora, de Jorge Aragão e Jotabê, é um samba que tem a dolente grife melódica de Aragão e que Emílio refina já na introdução, com seus scats. O público não resiste e faz coro com o cantor no refrão do samba. O desfile de sucessos continua com Essa Fase do Amor (poética balada da Aquarela 6), Mulher (fox que Emílio gravou na Aquarela 4 e que foi projetado nacionalmente em sua voz na abertura do seriado Mulher, da Rede Globo), Dias de Lua (canção melodiosa da Aquarela 3), e Tudo que se Quer, versão de Nelson Motta do tema da Broadway All I Ask of You. Esta música fez sucesso em 1989, na trilha da novela Tieta, em gravação dividida por Emílio com Verônica Sabino. E o sucesso foi tanto que ela entraria no repertório da Aquarela 6. Claro que não poderiam faltar Saigon (o megahit da Aquarela 2) e um medley com músicas de Gonzaguinha, compositor a quem Emílio já dedicou um disco inteiro na fase pós-Aquarelas. De Gonzaguinha, Emílio escolheu os sambas Com a Perna no Mundo, É e O Que É O Que É. Este último incendeia a platéia. O público que lotou o Canecão em 9 de março fica de pé e canta tudo. E, por falar em medley dedicado a um autor, Emílio brinda o compositor Gilson com um pot-pourri que reúne Tá Tudo Errado (Aquarela 6), Lesões Corporais (Aquarela 5) e Cadê Juízo (Aquarela 7). E é de Gilson, em parceria com Meire Peres, uma das novidades do projeto: Vai e Vem. Faixa que indica que são infindáveis as cores da Aquarela Brasileira de Emílio Santiago.

P.S. As faixas Dias de Lua, Reciclar, Mulher, Eu Sei que Vou te Amar, Essa Fase de Amor, e Fato consumado são exclusivas do DVD. Extraído do site Indie Records

CD inédito marca os cinco anos sem Baden Powell

Ronaldo Evangelista

Nos cinco anos da morte de Baden Powell --data a ser lembrada no próximo dia 26 de setembro--, novo lançamento ilumina a falta de comemorações previstas para o ano. A gravadora paulista Lua Discos acaba de desenterrar e programar o lançamento de álbum inédito do violonista, gravado ao vivo em Bruxelas, na Bélgica, em outubro de 1999, um ano antes de sua morte. Com o nome de "Baden - Live à Bruxelles", o disco deve ser lançado ainda no fim de julho próximo.

"Se houvesse um cansaço na mão do Baden, ainda assim valeria a pena lançar o CD, como um registro histórico, um de seus últimos shows. Mas, quando tomei contato com o material, já nos primeiros acordes me deu um troço, percebi que havia sido uma noite especial, ele estava realmente inspirado", conta Zé Luis Soares, diretor artístico da gravadora.

Com faixas como "Samba do Avião", "Manhã de Carnaval" e "Jesus, Alegria dos Homens", de Bach, além de "Berimbau" e "Consolação", essas duas últimas em versões cantadas, o disco traz Baden tão essencial quanto esteve em qualquer momento de seus últimos anos. Dividido entre a parte vocal e instrumental, tocando clássicos, sensível e virtuoso, Baden emociona de pronto, desde a abertura, com sua composição "Vento Vadio", até a emblemática despedida, com "Samba da Bênção".

Questionado sobre como aconteceu a descoberta de tal raridade, inédita em qualquer formato, tanto no Brasil como no exterior, Soares conta que foi um "presente" ter a oportunidade de lançar um álbum de Baden: "No começo do ano, fiquei sabendo que Silvia, a viúva de Baden, estava querendo negociar uma gravação ao vivo inédita dele. Senti cheiro de pólvora e corri atrás; no mínimo entraria na fila das pessoas interessadas em lançar. Mas deu tudo certo, e muito rápido. Entrei em contato, fiz uma proposta, em 15 dias a gente fechou tudo".

Com dezenas de discos lançados somente em países da Europa, especialmente nos anos 70 --fase mais produtiva de sua carreira, embora menos famosa no Brasil--, Baden conta com poucos lançamentos disponíveis no mercado brasileiro. Algumas gravações de sua fase mais jazzística, posterior às composições em parcerias com letristas, permanecem inéditas em qualquer formato no país. Segundo as contas de sua família, Baden tem 84 álbuns de carreira --14 lançados no Brasil e cerca de 70 disponíveis apenas no exterior.

O novo CD, ao vivo em Bruxelas, em gravação de qualidade sonora perfeita, vem engrossar o caldo de lançamentos nacionais, enquanto não surge a oportunidade de ver sua discografia completa disponível por aqui.

Músico fundamental, criador de sonoridades e estilos que definem o moderno violão brasileiro, além de sucessos populares ao lado de letristas como Vinicius de Moraes e Paulo César Pinheiro, como "Vou Deitar e Rolar (Quaquaraquaquá)", gravada por Elis Regina, Baden passeou com genialidade por gêneros como samba, jazz, choro e erudito. Todos muito bem representados neste "Live à Bruxelles". Álbum muito bem-vindo em sua discografia.

Extraído de Folha Ilustrada

Luciana Mello grava seu primeiro DVD

Por Marcelli D´Andréa

Luizinho Coruja

Atendendo aos pedidos dos fãs, Luciana Mello vai gravar seu primeiro DVD. A cantora conversou com a reportagem de OFuxico, adiantando que já está definindo canções e parcerias para esse trabalho, que também terá um CD.
"Até o final do ano estará pronto", adianta Luciana, que terá a parceria do irmão Jair de Oliveira na realização do projeto. "O Jair está voltando dos Estados Unidos e irá produzir o DVD e o CD". O último CD de Luciana foi o L.M., no qual ela encerrou a temporada com um show no Canecão, Rio de Janeiro, no dia 18 de maio. Agora, a cantora quer se dedicar ao DVD, que vem com muitas novidades. Quem deve estar ávido para ouvir e ver a apresentação da cantora é o público europeu, que tem um grande respeito por Luciana.
"Tudo o que faço, é para o mundo ouvir. É muito legal tocar na Europa, porque eles curtem muito a música brasileira, seja ela qual for. Eles não entendem nada da língua, mas gostam do suingue brasileiro, dessa mistura que a gente faz muito bem. Aliás, o brasileiro é o que faz melhor na hora de misturar músicas, sons e timbres. Eu sempre digo que música não tem idade, cor nem raça, não tem língua", explica.
Segundo a cantora, é muito gratificante saber que o povo fora do Brasil gosta da musicalidade brasileira. "Não tem como esquecer também que há muitos brasileiros lá fora carentes de música brasileira, que não sabem o que está acontecendo aqui. Nós vamos lá e mostramos o que se passa por estes lados".
Tanto sucesso e reconhecimento mundial não é para qualquer um e requer muito comprometimento e amor no que se faz. Ao ser questionada se nos sonhos de criança, Luciana se via como é hoje, ela sorri e, com toda simplicidade, diz:
"Eu via. Eu queria cantar, dançar, queria tudo... Eu curto muito cinema, sempre gostei. Claro que a gente não imagina certinho do jeito que é, mas eu pensava: Imagina poder levar o trabalho para os quatro cantos do mundo e as pessoas gostarem de você, ouvirem seu disco! Eu sempre me via fazendo isso e, graças a Deus, tem acontecido", finaliza.

Extraído do site O Fuxico

Receita de boêmio

Por Alice Granato
Fotos Ivone Perez

O compositor Noel Rosa era, antes de tudo, um apreciador de cerveja. À mesa, problemas para mastigar surgidos ao nascer levaram-no a preferir sopas e caldos. Mas, a julgar pela letra do samba "Conversa de Botequim", ele também gostava de uma boa média com pão e manteiga

Muito mais do que comer, Noel Rosa gostava de beber. Era cervejeiro - e dos bons. Às vezes amanhecia o dia abraçado à garrafa. Na época, bebia a Cascatinha, da Brahma, que hoje já não existe mais. E procurava convencer os parceiros de boemia dos poderes nutritivos da cerveja. Certa vez, foi encontrado de manhã com um copo da bebida e outro de cognac. "Francamente, Noel, logo cedo?", disse o amigo que o flagrou. O genial sambista não se abalou. Começou a discorrer sobre o valor nutritivo da cevada, para ele um alimento que valia por um almoço. "Está bem, mas e quanto ao cognac?", indagou o outro. A resposta de Noel veio de pronto: "Bem, como eu não sei comer sem beber, estou tomando esta dose de cognac para acompanhar a refeição". Gozador, espirituoso, o carioca Noel Rosa foi o mais importante compositor popular de seu tempo (1910-1937). Inovou ao mostrar não só o amor (visto de forma bastante amarga), mas as mazelas da vida: a fome, a bebida, a prostituição, os assassinatos e as mentiras.

Ao lado de grandiosos parceiros, entre os quais se destacavam Lamartine Babo, Cartola e Ismael Silva, subiu o morro para tornar o samba mais elaborado. Da sua querida Vila Isabel, bairro onde nasceu e morreu, à Tijuca de Lamartine, à Mangueira de Cartola, Noel circulava sempre desprendido para viver e contar o que visse, sem dó nem piedade. Solto na boemia, perambulava pelas ruas com os amigos fazendo galhofa. Uma das preferidas da turma era roubar o leite dos vizinhos, que chegava às casas pouco antes de clarear, assim como eles. Em uma das noitadas, Noel voltava para casa com Lamartine e propôs um café-da-manhã ao companheiro. Cada um segurava uma garrafa de cerveja na mão e eles decidiram substituí-las pelas garrafas de leite colocadas na porta do vizinho. Feita a troca, foram embora felizes, mas não sem antes deixar um bilhete: "Alimentem-se com a nossa cerveja, enquanto nos envenenamos com vosso leite".

Bebedeiras à parte, Noel enfrentava problemas concretos na hora de comer. Seu nascimento foi complicado por um parto que precisou da ajuda de fórceps, o que lhe rendeu uma paralisia no lado direito do rosto. "Por conta do problema no queixo, ele mastigava com muita dificuldade", diz o crítico de música João Máximo, autor da biografia de Noel ao lado de Carlos Didier. Sendo assim, sopas, caldos, purês, mingaus e líquidos em geral eram mais convenientes para sua dieta. "Havia em Vila Isabel uma sopa famosa, feita com o resto de uma porção de coisas, que os boêmios gostavam por ser generosa e barata", informa Máximo. Noel tomava igualmente um caldo forte na casa do amigo Cartola, depois de homéricos porres conjuntos.

Recebidos por Deolinda, então mulher do compositor mangueirense (citada na biografia como o "anjo da guarda da dupla"), eram tratados como crianças. A mulher lhes dava até banho. Para alimentá-los, ela preparava um caldo, feito com osso de tutano, fervido com tomate e cebola e engrossado com talharim. Segundo Deolinda, a receita "levantava até caixa-d'água". Com todos esses cuidados, era muito comum Noel dormir no barraco do amigo Cartola. Apesar da dificuldade física, nem só de líquidos vivia o magrelo Noel. O cantor Silvio Caldas gravou um depoimento dizendo que o amigo também era adepto do bife com fritas. "Talvez fosse o prato mais comum da época", especula Máximo. "Todo bom carioca apreciava um filé com fritas. O Silvio também preparava peixadas para Noel e tinha orgulho de suas receitas."

No tempo do ilustre sambista, muitos boêmios passavam horas a fio nas mesas dos cafés, cena retratada em seu antológico samba "Conversa de Botequim" (em parceria com Oswaldo Gogliano, o Vadico). "Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa/uma boa média que não seja requentada/um pão bem quente com manteiga à beça", solicita a letra divertida. Mais adiante, faz uma ameaça marota: "Se você ficar limpando a mesa/não me levanto nem pago a despesa". Nesse momento, Noel faz uma clara referência aos garçons que queriam expulsar os fregueses do café. "Eles fingiam limpar a mesa para espantá-los, já que ficavam um tempão ali sem consumir", diz Máximo. "Hoje, ninguém tem mais tempo para isso. É uma pena, porque se perde o humor e a arte de fazer amizades." Mesmo tendo morrido prematuramente, aos 26 anos, vítima da tuberculose, Noel deixou um enorme acervo de criações, que não nos sai da memória, entre as quais vale lembrar "Último Desejo", "Dama do Cabaré", "Palpite Infeliz", "O Orvalho Vem do Campo", "Quem Ri Melhor" e "Com Que Roupa?". Concretamente, transformava em arte suas dificuldades, sem jamais perder o humor. "A mulher é o aperitivo que ajuda o homem a comer o prato indigesto da vida", escreveu ele em 1930.

Matéria publicada na edição 151 - Maio/2005 - Revista Gula

Livro

Coleção Mestres Da Música No Brasil
Cartola


A jornalista Monica Ramalho lançará o livro que narra a vida do sambista Cartola para o público infanto-juvenil. O título faz parte da coleção Mestres da Música no Brasil - destinada a crianças e adolescentes, dos 9 aos 14 anos -, da Editora Moderna. O livro é ilustrado por desenhos de Lan, um deles inédito, uma caricatura também inédita de Cássio Loredano e cerca de 40 fotografias - feitas por Evandro Teixeira, Walter Firmo e Antônio Carlos Miguel, entre outros. Quem assina o texto de apresentação é o multimídia Hermínio Bello de Carvalho, que foi parceiro e amigo do bamba Cartola.

"Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve", bem definiu o também sambista Nelson Sargento.

Com um estilo mais elaborado do que o dos compositores de escolas de samba de sua época - desde o início da carreira, na década de 30 -, Cartola encantou o mundo com seus sambas ao mesmo tempo simples e universais. Conquistou também a admiração de famosos, como Noel Rosa, Pixinguinha e Heitor Villa-Lobos. Virou lenda desde então e hoje é considerado um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos.

A vida dura, cheia de altos e baixos, reservou pelo menos dois fatos marcantes para Cartola: a fundação da Estação Primeira de Mangueira e a criação do bar e restaurante Zicartola, ao lado da mulher Zica. Apesar do amor que dedicava ao samba, o reconhecimento do valor de Cartola foi tardio. Ele entrou num estúdio pela primeira vez aos 65 anos e, nos anos seguintes, gravou apenas mais três discos individuais.

Compositor de origem modesta, com pouco estudo, mas erudição na alma, assina diversas obras-primas do cancioneiro popular, entre elas os clássicos As rosas não falam, O mundo é um moinho, Corra e olhe o céu e Tive sim.

O livro Cartola, da coleção Mestres da Música no Brasil é uma rara oportunidade de apresentar ao público infanto-juvenil um mundo poético verde-e-rosa, construído pelo maior compositor da história da Mangueira.

A autora
Monica Ramalho, 28 anos, é jornalista especializada em Música Brasileira, com passagem pela redação do JB Online e pela assessoria de imprensa da gravadora Biscoito Fino. Em 2003, fez a pesquisa jornalística do musical Obrigado, Cartola. Foi depois de conversar com amigos do compositor mangueirense, entre eles Paulo César Pinheiro, Elton Medeiros, Hermínio Bello de Carvalho, Sergio Cabral e Nelson Sargento, e de visitar endereços do cotidiano do sambista, como o Zicartola e a casa de Jacarepaguá, que sentiu vontade de contar a história de Cartola para crianças e adolescentes. O projeto coincidiu com a oportunidade de escrever um título à coleção Mestres da Música no Brasil, da Editora Moderna.

Atualmente, a autora colabora com a revista Bravo!, desenvolve uma pesquisa sobre vida e obra do violonista Raphael Rabello (através de uma bolsa concedida pela RioArte), estuda fotografia e trabalha na Globo.com

(Extraído do site www.moderna.com.br)

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Show

Sesc Pompéia apresenta até domingo diferentes vertentes do movimento de implosão dos limites na produção nacional, reunindo a nata da vanguarda paulistana


Passoca, filho de Luiz Tatit, Luiz Tatit, Barnabé, Eliete Negreiros, Virginia Rosa,
Dante Ozetti, Suzana Salles, Nestrovski e Ná Ozzetti

Ronaldo Evangelista
Colaboração para a Folha Ilustrada

A vanguarda paulistana está de volta. Na verdade, ela nunca partiu, mas surge agora oportunidade de vê-la reunida e com força, em evento solene. Organizado pelo Sesc Pompéia, acontece de hoje a domingo o projeto Vozes da Cidade, com a proposta de mostrar diferentes vertentes da música concebida e germinada na maior cidade da América do Sul.
Intelectualizada, rica, popular e antipop, a tal vanguarda surgida no começo dos anos 80 foi criada por jovens estudados e inquietos, mais interessados em implodir e ampliar os limites da música brasileira do que necessariamente em fazer sucesso.

Guiada por figuras como o compositor Arrigo Barnabé, de formação erudita e interesses kitsch, e Itamar Assumpção (morto em 2003), de suingue popular e inovações rítmicas, teve também as participações revolucionárias de bandas como Rumo (que costumava se chamar Rumo da Música Popular Brasileira), com músicos como Luiz Tatit e Ná Ozzetti, e Patife Band, de Paulo Barnabé, irmão de Arrigo. José Miguel Wisnik, pianista, compositor, cantor e inovador, é outro ponto de equilíbrio.

Reunidos pela Folha para um bate-papo sobre o movimento, alguns de seus principais representantes discutiram os 25 anos de novidades ininterruptas.

Arrigo Barnabé, famoso por seu antológico LP "Clara Crocodilo", lançado em 1980, comenta que era "iludido" em seu começo de carreira. "Eu acreditava em uma certa linha evolutiva da música brasileira. Então havia uma ruptura. Todos faziam música que rompia com o que havia antes. Havia algo de ideológico. Apesar de todos terem interesses composicionais bem diferentes, isso talvez fosse o que unia a todos."

O violeiro e cantor Passoca, que renovou a música caipira em sua geração, aponta outra característica importante: "Com a vanguarda, surgiu um público alternativo, que não havia. Antes, ou você tocava no rádio e fazia sucesso ou não. Mas a nossa geração não pensava em fazer coisas, ia-se fazendo. De repente, as pessoas foram percebendo nosso trabalho. Uma classe média mais ou menos esclarecida começou a lotar teatros, a imprensa se interessou, era possível viver de música sem aquele parâmetro de sucesso de antes".

Perguntado sobre uma certa "elitização" da música, Barnabé questiona também o conceito de arte na música popular. "No Brasil, os músicos têm medo de dizer que fazem entretenimento. Mas há uma diferença muito grande entre o lado de entretenimento e arte da música. A importância cultural de uma obra não a torna arte. Ela pode até ser, mas não necessariamente. A música mainstream de hoje em dia é algo muito próximo do jingle. Há essa intenção do produto. As pessoas compõem buscando o que vai pegar, o que vai fazer sucesso. E, ainda assim, se consideram artistas."

Arthur Nestrovski, violonista que toca com José Miguel Wisnik, lembra que "não há por que ter vergonha do lado intelectualizado" da vanguarda paulistana. Mas Dante Ozzetti, compositor, irmão da cantora Ná Ozzetti, ressalta que o estilo atrai um público "pelo valor que tem, e não por uma tentativa de ser diferente".

Suzana Salles, que sempre cantou ao lado de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, insiste em dizer que "a música muda, mas certas coisas continuam" e aponta o valor da geração de Caetano Veloso e Chico Buarque. Já Barnabé, sem desconsiderar a importância da geração anterior, faz críticas severas.

"O tropicalismo inverteu o sentido de arte e entretenimento. Eles buscavam o êxito, sabiam que a música devia ser consumida, mas se colocavam como arte, o que não concordo. Foi importante eles se utilizarem do iê-iê-iê, de Roberto Carlos, de Vicente Celestino, mas, depois do tropicalismo, esses compositores se enclausuraram no bom gosto. A geração anterior à nossa na MPB é toda formada por superstars."

Todos esses diferentes músicos que formam essa chamada música vanguardista podem não concordar em tudo, mas seu espírito original é o mesmo. Juntos, têm uma força inovadora impressionante até hoje. Suzana Salles resume as semelhanças e diferenças de tantas personalidades diferentes reunidas: "Dá pra perceber que as vozes da cidade são dissonantes, mas têm harmonia perfeita, não é?".

Vozes da Cidade
Quando: de hoje a domingo
Onde: teatro do Sesc Pompéia (r. Clélia, 93, SP, tel. 0/xx/3871-7700)
Quanto: de R$ 5 a R$ 15

A melhor cantada
 

http://detalhesziriguidum.nafoto.net/photo20050531162756.html

Um novo tipo de presente promete ser a sensação para o dia dos namorados: uma música exclusiva.  A compositora Lucina abre o site www.musicasobmedida.com e se lança na aventura de produzir a trilha sonora da minha, da sua e da vida do vizinho. Uma canção sob medida é a declaração de amor que todo mundo vai querer ganhar. Inesquecível. Lucina tem músicas gravadas por nomes como Frenéticas (É que nessa encarnação eu nasci manga), Ney Matogrosso (Bandoleiro, Napoleão, De Marte, Êta nóis, Bugre entre outras), Joyce (Doçura forte), Fred Martins (A música em mim entre outras), Zélia Duncan (Coração na boca, Miopia, Minha fé, Depois do perigo entre outras), Verônica Sabino (Sem suspiros e Fim) e Wanderléa (Perdidos de amor).

A dupla Luli e Lucina  se desfez em 1997 e Lucina iniciou carreira solo. Lançou três discos e prepara um quarto pelo selo da amiga e parceira Zélia Duncan. Ao mesmo tempo, ministra aulas de composição, faz preparação vocal de atores, participa de projetos sociais e cria trilha sonora para teatro, dança e cinema, além de jingles para campanhas publicitárias.

Na quinta-feira, 02 de junho, Lucina fará show no Madame Vidal.
Rua Capitão Salomão, 69 - Botafogo/RJ - às 21 horas.

[ Travessia - ver cantos anteriores ]



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Pão e Poesia - Simone

"Um cantinho, um violão. Este amor, uma canção. Pra fazer feliz a quem se ama. Muita calma pra pensar. E ter tempo pra sonhar. Da janela, vê-se o Corcovado, o Redentor - que lindo! Quero a vida sempre assim, com você perto de mim, até o apagar da velha chama. E eu que era triste, descrente desse mundo... Ao encontrar você, eu conheci o que é felicidade, meu amor." (Corcovado - Tom Jobim)

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